Comunicação proferida na primeira comemoração do Dia do Médico na MAC.
Foi com prazer que aceitei o convite, quer por poder transmitir aos mais novos uma visão aproximada do passado, que explica o presente, como também, por poder partilhar esse passado, com alguns colegas presentes nesta sala e, que me acompanharam nessa caminhada.
Não posso deixar de recordar os bons mestres que ensinaram e os colegas mais velhos que ajudaram o muito que aprendi. A esta distância, considero ter sido um privilégio o ter assistido e participado em acontecimentos tão importantes, que ocorreram na MAC, nas especialidades de Ginecologia/Obstetrícia, Pediatria e Anestesiologia, nas últimas três décadas do século XX.
Houve momentos inesquecíveis, vividos nesta Casa ao longo de 30 anos (65-95) e, que me transmitiu uma forte motivação e, sensação, de realização profissional.
Entre os muitos que vivi, escolho quatro que fizeram “clic”na minha mente e, foram ponto de partida, para grandes mudanças na época, mas que, hoje, são encaradas como vulgares e banais.
Também, atrevo-me a dizer, que nesse intervalo de tempo, se passou da ciência do nascer, para a ciência do gerar e, que, a gravidez foi aos poucos deixando de ser um acontecimento do acaso, para passar a ser um projecto do casal, com preparação pré-concepcional. A gravidez, hoje, já num grande número de vezes, “projecta-se e prepara-se” e, dantes, só “acontecia”.
1º “clic”-1968. Lembro-me, no final dos anos 60, que quando se pedía à Srª Enfermeira da Sala de Forceps um Forceps Naegele, ela trazia a respectiva caixa, que entre as várias que existiam havia uma que continha dois modelos de fórceps, um, o dito Naegele e, outro, com uma forma estranha e, cujo nome poucos sabiam e tinha a fama de ter provocado, em tempos passados, lesões maternas. Recordo uma situação, do período expulsivo, difícil de resolver: - as apresentações cefálicas em variedades posteriores persistentes. Era com a ventosa obstétrica que, laboriosamente, fazíamos a rotação e a descida da apresentação, habitualmente, com sequelas cutâneas do couro cabeludo. Com a progressão do internato e, através dos manuais, tomei conhecimento do fórceps Kielland, o tal de forma estranha, que permitia fazer a manobra de rotação da cabeça fetal de forma cautelosa e mais eficaz, assim como, uma descida e extracção mais fácil e com muito menos sequelas cutâneas. Rapidamente, ganhei uma casuística considerável e, demonstrei que a opinião prevalecente na época, de que com um modelo de fórceps clássico se faziam todas as extracções da cabeça fetal, não era verdadeira.